Como usar o mapa de desejos
O mapa de desejos não é uma lista de tarefas nem um quadro de sonhos. É uma forma de recuperares o contacto com aquilo que realmente queres, de separares o que é teu do que é de outros e de aprenderes a reparar que o que há de bom na tua vida já está a acontecer. Não precisas de entrar todos os dias. Escrever tudo de uma só vez — também não. Aqui fica como viver com isto.
Para que serve isto, afinal
A maioria das pessoas chega a uma sensação parecida: à primeira vista está tudo bem, mas por dentro ou está vazio ou está «errado». Quase sempre por trás disto está uma coisa simples — a perda de contacto com os próprios desejos. Vivemos tanto tempo em modo «tenho de» e «como é correto» que o nosso próprio «quero» se cala, e à pergunta «e tu, o que queres?» há, por dentro, silêncio.
O mapa de desejos devolve esse contacto. Quando escreves os teus cem desejos, acontecem várias coisas ao mesmo tempo. Trazes à luz aquilo que normalmente vive em ti de forma vaga e sem nome. Começas a distinguir quais os desejos que são teus e quais foram engolidos dos pais, do meio e do feed. E pela primeira vez em muito tempo dás-te o direito de querer — sem olhar para se é decente ou realista.
Isto não resolve o «como atingir os meus objetivos», mas algo mais inicial: deixas de viver em piloto automático e voltas a descobrir o que ainda há de vivo dentro de ti. É daqui que começa quase toda a mudança.
Como trabalhar com isto na prática
O mais importante a perceber desde o início: isto não é uma maratona nem uma tarefa que tenhas de entregar. Não há ritmo certo, não há prazo e não há nada que possas falhar.
Não precisas de escrever tudo de uma vez. São poucos os que escrevem cem desejos de uma sentada, e isso é normal. À maioria é mais confortável de outra forma: senta-se, escreve o que sair, fecha. Dois dias depois lembra-se de mais — acrescenta. A lista pode levar uma semana a juntar-se, e até é melhor assim: entre as sessões vem ao de cima aquilo a que não chegas logo.
Vai haver um momento em que vais encalhar — normalmente depois dos trinta ou quarenta. Vai parecer-te que já escreveste tudo, e virá uma leve irritação ou um vazio. Isso não significa que os desejos acabaram. Significa que acabou o habitual, e começa o verdadeiro. Não desistas aqui — é precisamente atrás desta parede que vive aquilo por que tudo isto começou.
Arrumar a lista é um trabalho à parte, calmo, não no mesmo momento em que escreves. Quando já tiveres desejos suficientes, percorre-os sem pressa: organiza por áreas da vida, repara em quais te aquecem por dentro e quais pesam e sabem a «tenho de».
Com que frequência entrar. Todos os dias — de certeza que não. Enquanto juntas a lista — entras quando te apetece escrever. Quando a lista está feita — basta espreitar a cada uma ou duas semanas por uns minutos, e a cada mês ou mês e meio olhar para ela por inteiro: o que se realizou, o que deixaste de querer, o que apareceu de novo.
E o mais importante: se desapareceres por um mês ou por meio ano — nada se perde nem se zera. Voltas — continuas do mesmo sítio. O mapa espera com calma, o tempo que for preciso.
Largar faz parte do trabalho, não é uma falha. Com o tempo, alguns desejos deixarão de ser teus. Reconhecer «já não quero isto, era um sonho de outra pessoa» é uma vitória à parte, bastante adulta. Para isso há aqui um lugar, e está à vista, não escondido num arquivo.
O que acontece quando os desejos se realizam
Há uma característica da mente por causa da qual a vida muitas vezes parece um défice sem fim: um desejo realizado deixa muito depressa de dar alegria. Aquilo que querias há meio ano, em duas semanas torna-se norma e fundo, o prazer evapora-se, e volta a sensação de que falta algo. Não é ganância tua — é assim que funciona a habituação, está em toda a gente.
Com isto pode-se trabalhar, e funciona uma coisa simples — a atenção. Quando paras de forma consciente e marcas «era isto que eu queria, e realizou-se», o cérebro responde com uma pequena sensação de satisfação, aquela mesma que normalmente passa ao lado. Por isso, no mapa, realizar um desejo não é um visto a despachar, mas um segundo à parte em que te demoras de propósito. É esse segundo que te devolve a alegria que de outra forma terias perdido.
A secção «já se realizou» trabalha no mesmo sentido, só que logo: lembra-te de quanto já recebeste daquilo com que um dia sonhaste a sério. Não é vaidade. É o que cura aquele «mesmo assim, é pouco» de fundo — não com argumentos, mas devolvendo-te a sensibilidade ao que há de bom na tua própria vida.
Faço a ressalva devida: o mapa de desejos é uma ferramenta de autoobservação, não um diagnóstico nem um tratamento. Se estás mesmo a passar por um momento difícil, ele não substitui alguém a quem possas pedir ajuda. Mas como forma de te ouvires e de reparares no teu bem — faz exatamente aquilo em que assenta também uma terapia normal.
O que isto te ensina com o tempo
Se voltares ao mapa de vez em quando, ao fim de alguns meses começa a transparecer aquilo que não se vê numa só noite.
Começas a reparar que, por baixo de desejos diferentes, está muitas vezes a mesma coisa. Por trás de «uma casa», «o meu próprio atelier» e «mudar de país» pode estar uma só necessidade — por exemplo, de segurança ou de liberdade. Vais ver que a vida toda procuraste não coisas, mas isto.
Vais ver a forma dos teus desejos: que área da vida está cheia a transbordar e qual está vazia. É um mapa honesto de para onde vai a tua atenção e de onde, talvez, tu próprio te proibiste algo — cuidar do corpo, descansar, proximidade.
E vais ver movimento. O que se realizou, o que deixou de ser importante, o que veio em sua substituição. É precisamente a isto que aqui se chama anéis de crescimento — não pontos por atividade, mas o rasto daquilo que viveste e percebeste. Quanto mais tempo estiveres com isto, mais anéis, e mais nítido fica que não estás parado, mesmo quando te parece que estás.
Se for mesmo em resumo — o que fazer
- ❦Começa pelo que já se realizou — assim é mais fácil entrar.
- ❦Escreve os desejos à medida que vêm, sem ordem e sem julgamentos. Quaisquer: minúsculos, parvos, embaraçosos, impossíveis.
- ❦Não tem de ser de uma só vez. A lista pode levar dias a juntar-se. É normal.
- ❦Chegas à parede aos trinta ou quarenta — não desistas, é a partir daí que vem o mais importante.
- ❦Arruma a lista com calma e à parte da escrita: organiza por áreas, repara onde há calor e onde há «tenho de».
- ❦Entra sem fanatismo: a cada uma ou duas semanas por uns minutos, uma vez por mês um olhar por inteiro. Todos os dias não é preciso.
- ❦Realizou-se — demora-te um segundo, deixa-te senti-lo, não passes à frente.
- ❦Deixaste de o querer — larga. Não é um fracasso, é sinal de que amadureceste.
- ❦Desapareceste por muito tempo — não faz mal. Nada se perde. Voltas e continuas.
